*** ENTREVISTAS ***


SIMPLICIDADE A SERVIÇO DA MÚSICA


Shows do Roupa Nova, gravações com Leonardo, Daniel, Lulu Santos e muitos outros. A Rotina do baterista Sergio Herval há anos tem sido tocar, tocar e tocar. Todo esse agito transparece na vivacidade do seu jeito de falar, nos seus gestos e, claro, na sua maneira de tocar bateria.

BATERA - Você usou por muito tempo bateria eletrônica. Nesse último disco você só usa a acústica. Por que?

Serginho Herval - Fui um dos primeiros a usar a KS 900. Na época paguei US$ 3700, hoje você não vende por 100. Se der, neguinho joga fora, porque a resolução de 12 beats é horrível, um chiado. Acontece que, em função da eletrônica, eu estava mudando minha postura de tocar. Coisas que fazia na acústica não estava conseguindo fazer na eletrônica, porque ela tem suas limitações. Comecei nos pré-moldes da eletrônica, mas descobri que não era minha praia. Batera que é batera usa um monte de caixa, de sonoridades. No estúdio há muitos recursos de microfonação, ecos, reverbs, que transformam uma caixa, por exemplo. Neste último disco, as coisas eletrônicas entraram só fazendo complemento. Não toquei um Pad, só usei loops.

- Foi você quem programou os loops?

Serginho Herval - Não, foi o Ricardo (Feghali). Ele tinha uma gama de sons e eu opinava. Depois de prontos os loops nos teclados, meti a batera em cima. A experiência mais agradável pra mim neste disco foi gravar quatro faixas em Los Angeles. Como o nosso produtor, o Moggie, tinha compromissos nos EUA, tive que ir junto, infelizmente (risos). Lá gravei no estúdio Capitol específico para bateria. Gravei numa Grecthie alugada. O Moggie pediu para eu fazer uma lista do que eu queria para gravar e, quando cheguei lá, tinha tudo e mais um pouco. Gravar nesse estúdio foi entrar num universo novo que ainda não tinha tido contato. Lá também conheci o baixista do Genises e o Luís Conte (Percussionista do Phil Collins), que tocou percussão nesse disco e com quem tenho trocado e-mails quase todos os dias. É legal quando seus ídolos viram seus amigos, é uma nova dimensão.

- Quais são as novidades nesse último disco do Roupa Nova (Agora Sim)? A preocupação foi deixar mais dance?

Serginho Herval - Não. Apenas duas músicas são dance, "Anjo" e "Clarear". Quando o Roupa Nova surgiu, existiam apenas duas bandas no cenário musical brasileiro, a Cor do Som e o 14 Bis. Em 1984, descobrimos uma maneira de cantar e tocar, de fazer um pop romântico, que ainda não tinha sido feito. Isso deu muito certo, vendeu pra caramba. No Brasil, quando você se torna a bola da vez, muitos artistas te convidam para participar do trabalho deles. Então, nós gravamos com a Rita (Lee), (Gliberto) Gil, Gal Costa, Milton Nascimento, com todo mundo. Também gravei os 5 primeiros discos do Lulu Santos. Mas, no momento de gravar disco do Roupa Nova, a sonoridade se tornava repetitiva. Podia até ser agradável para o cenário musical, mas o Roupa estava ficando com a cara dos outros. Há algum tempo já estamos batalhando nossa sonoridade. Pensamos muito na forma dos vocais, viradas de bateria. Pesquisamos muito a música do mundo todo, porque, apesar dos avanços, as informações ainda vem de fora. Muita coisa da Europa, da Inglaterra que a gente não conhecia, nós ouvimos para fazer esse disco. Algumas não gostamos, outras sim e incorporamos, pegamos levadas, maneiras de tocar. O grande lance é assimilar as coisas que têm a ver com a sua verdade, porque senão vira algo que não é você. A nossa preocupação nesse disco, enfim, foi procurar uma saída, uma alternativa. Continuo trabalhando como músico de estúdio, gravando com Daniel, leonardo, mas o trabalho do Roupa faço diferente.

- Com quais artistas você acha que mais mostrou seu estilo?

Serginho Herval - Lulu, sempre. O trabalho musical dele tem muito mais afinidade musical comigo. A grande sabedoria do músico é saber usar sua personalidade em um trabalho específico. Por exemplo, nunca vou gravar com o Léo Gandelman ou Pixinga, por mais que goste deles e eles de mim. A minha praia é outra. Sou muito mais simples ao tocar, não tenho toda essa performance que o Welckl ou o Dennis Chambers têm. Adoro eles, ouço, vejo todos, porque um dia podem me pedir para tocar algo parecido. Aqui no Brasil tem muito disso: "toca que nem fulano, faz a virada daquele outro".

- Quais foram suas influências?

Serginho Herval - No início o Ringo Starr. Se você pensar em 1967, os caras inverteram o som da caixa, de bateria. Não tinha botãozinho de Gate Reverse. Quando comecei, com cinco anos, era só Beatles e Rolling Stones na TV preto e branco. Hoje é diferente. Meu filho de dez anos não fala em outra coisa, sabe quem é Dave Weckl, (Vinnie) Colaiuta, todo mundo. Depois de muitos anos descobri o Jeff Porcaco. Foi uma pessoa que influenciou demais a minha carreira. Tudo que queria tocar, o Jeff Porcaco tocava. Ele tinha simplicidade, bom gosto. Um cara de hoje que ouço muito é o Vinnie Colaiuta. acho que minha trajetória como músico de estúdio me levou para esses caras. Eles gravaram com artistas do mesmo segmento daqueles com os quais eu gravo. Por exemplo, o Jeff Porcaco gravava com o Bee Gees, com o Elton John. Não adianta, para mim, estudar caras como Weckl e Greg Bissonette, porque jamais vou trabalhar com esse estilo de música. Porcaco para mim era o número um, mas ouço todo mundo.



- Dentro da música pop, você se sente realizado como baterista?

Serginho Herval - Gosto tanto do que faço que nunca parei para pensar nisso. Mas, às vezes, sinto falta de uma coisa. Por questões profissionais, viajo muito, então nunca posso participar de eventos de bateria. Se agendar um evento desses, travo minha banda. Temos esse tipo de combinação: podemos fazer tudo com tanto que não atrapalhe o Roupa Nova. Estou sempre lendo, acompanhando notícias sobre estes eventos. Sinto falta disso, mas ainda não é hora de participar. Me sinto realizado, não sou frustrado. Pô, dezenove anos de Roupa Nova, bicho! Tenho certeza de uma coisa: muitos músicos que participam desses eventos gostariam de ter uma banda como o Roupa Nova, que é unida.

- Muitas pessoas esperam ver um trabalho solo seu. Isso pode acontecer?

Serginho Herval - Como falei, sou um cara muito comportado dentro do estúdio. Então não sei como seria um trabalho solo meu. Um trabalho calcado em performances espetaculares não é minha cara. Não que não consiga. Essa semana, por exemplo, fiquei impressionado ao assistir a vídeos do Cartie Beauford. Notei que muitas coisas que ele faz também faço. Peguei algumas idéias também e já meti a besta nos ultimos shows do Roupa (risos). Ao vivo, tenho a possibilidade de me explorar mais do que no estúdio, onde tenho o compromisso com a sonoridade Roupa Nova. Para o publico, passa lotado. Ainda mais quando a música já é antiga, um sucesso. "Whisky a Go-go" já não tem mais nada a ver com o que gravei.

- Como o Roupa Nova mudou neste anos todos? Lembro que, na música "Lumiar", do Beto Guedes, que vocês gravaram há muitos anos, o lado instrumental era mais valorizado. Houve uma simplificação?

Serginho Herval - Com certeza, mas não foi por vontade própria. Quando a gente gravou uma balada que deu certo, vendeu muito, as rádios passaram sempre a procurar músicas semelhantes nos novos trabalhos do Roupa Nova. Se a gente faz uma coisa mais swingada, mas jazzística, ninguém fica sabendo, a radio nunca vai mostrar. Somos um grupo romântico? É, passamos a ser. Não era a nossa proposta, mas não vou renegar isso. Se deu certo, se me fez vender pra caramba, não me envergonha. A gente é sim, um grupo popular que toca música romântica, mas não é só isso. A rádio foi quem traçou este perfil. É o preço que se paga pela fama.

- E como você se tornou cantor?

Serginho Herval - Comecei tocando. Com dez anos fiz meu primeiro baile. Me pé quase não alcançava os pedais. Tocava numa Gope de metal com peles de couro de animal, que mudava toda hora de som. Você passava o som de dia e ficava lindo, à noite, com o sereno, desafinava tudo (risos). Aos 12 anos comecei a cantar. Era um microfone só no baile, então, nas músicas que tinham backing vocals, o cantor ficava lá para atrás no palco (risos). Descobri naturalmente que tinha o dom de cantar. Nunca fiz aula. O otorrino com quem trabalho disse que sou um caso raro na medicina porque não canto com as cordas vocais, são falsas cordas, são ondas fantasmagóricas. Tive calo nas cordas ainda quando cantava em bailes, então forcei para suprir as perdas.



- Você estudou bateria?

Serginho Herval - Nunca. Tive a petulância de ir ao Conservatório Vila Lobos e char que ia pegar o Bituca (famoso professor, que por muitos anos tocou na Globo) logo de cara. Mas era preciso estudar três anos para ter aula com ele. Nas primeiras semanas tive aula de tímpano e, como estava tocando na Bolha, grupo do Erasmo Carlos, e viajando sem parar, não consegui acompanhar. Então deixei. Como sou autodidata, tenho uma facilidade absurda de decorar, pego uma convenção fácil. Quando gravo, uso cifras, porque também toco Guitarra. Acho mais fácil acompanhar a harmonia. Não leio nada de partitura de batera. Em uma passagem decoro tudo, mas, se não houver passagem antes, me ferro.

- Você tocou com o Guitarrista do Genesis, Steve Hackett, quando ele veio para o Brasil. Fale um pouco dessa experiência.

Serginho Herval - Foi uma ocasião em que a minha didática funcionou. Ele me deu uma fita à uma da madrugada de uma quarta feira e, na quinta, às cinco da tarde, eu estava passando o som. Fiquei a noite inteira ouvindo e anotando. O empresário queria cancelar o show de qualquer maneira. Quando a banda do Steve estava no Rio, se apresentando no Canecão, o batera dele, garotão, dezoito anos, foi surfar e deslocou o ombro. Eu o substituí nas duas apresentações no Palace, em São Paulo, por indicação da mulher do Steve. Quando eles viram que eu conhecia todas as músicas, ficaram mais tranquilos. Gostava do Genesis, tinha todos os discos. O Show rolou super bem, eles me agradeceram e até hoje me mandam e-mails. Outra experiência interessante me ocorreu na época do primeiro Rock in Rio. Várias bandas gravaram o jingle do Hollywood. Chamaram o David Coverdale para cantar e ele escolheu a faixa que tinha sido gravada pelo Roupa Nova.


ENTREVISTA CONCEDIDA A REVISTA BATERA



MUNDO ROUPA NOVA
"O MUNDO DE QUEM GOSTA DO ROUPA NOVA"