|
*** ENTREVISTAS ***
A VANGUARDA DA BATERIA BRASILEIRA : SERGINHO HERVAL
O baterista carioca Serginho Herval, do Roupa Nova, é referência para uma legião de fãs e músicos em todo Brasil. Serginho é um dos sidemen mais requisitados para gravações, além de ser integrante de uma das mais competentes e aclamadas bandas do Brasil em todos os tempos, o Roupa Nova. Baterista de extrema fluência no instrumento, é ainda responsável por boa parte dos vocais da banda, tendo grandes sucessos cantados por ele. A Backstage conversou com esse extraordinário baterista no estúdio do Roupa Nova, na Barra da Tijuca, no Rio.
BACKSTAGE - Quando você começou a tocar e quais foram suas primeiras influências?
Serginho Herval - Rapaz, eu comecei com 5 anos de idade. Em fevereiro, eu fiz 45 anos, então já tenho 40 anos de bateria. Na época, não existia TV a cores, nem videocassete, muito menos DVD ou videoaula. As minhas informações vinham dos discos dos Beatles e dos Stones que meu pai comprava. Logo de cara, eu me identifiquei mais com o som dos Beatles por causa dos vocais, mesmo sem saber que, alguns anos depois, eu participaria de uma banda tocando bateria e cantando. O Charlie Watts é um tremendo talento, isso é inegável, mas acho que, para minha geração, o Ringo Starr foi o baterista que mais me marcou, por ter trazido novas idéias, Por exemplo: a flanela abafando a caixa, mudando os timbres da bateria, usando batidas invertidas e muitas coisas que não usavam na época. Depois vieram John Bonham e Ian Paice.
- Qual foi sua primeira bateria?
Serginho Herval - Quando eu tinha 5 anos, ganhei dois tambores de plástico com peles de couro, daquelas que quando fazia calor esticava e quando o tempo esfriava, ficava mais grave. O meu pai, que sempre foi muito criativo, inventou mais dois tambores com latas de leite em pó, aproveitando as tampas das latas para fazer os pratos, e eu toquei em casa com essa bateriazinha, acompanhando os discos na radio-vitrola dos 5 aos 7 anos. Depois veio uma Gope com bumbo de 18" e, finalmente, aos 12 anos, ganhei uma Pingüim branca, que fui "turbinando" aos poucos, e foi a bateria que me segurou por um bom tempo.
- Você já estava tocando profissionalmente nessa época?
Serginho Herval - Aos 10 anos, eu fiz parte da primeira formação do conjunto do Lincoln Oliveti, que é esse arranjador que todo mundo conhece. A gente era vizinho e tocava com o pessoal da rua em festas de igreja, aniversário, casamento e já ganhava um dinheirinho. Eu tinha uma autorização do Juizado de Menores para trabalhar e ia com meu pai para os bailes. Aí, continuei tocando com a Gope, depois com a Pingüim, e em 1972 eu entrei num grupo de baile chamado Super Bacanas, onde fiquei por dois anos, e o grupo tinha uma Ludwig com dois bumbos e quatro tons. Na época já estava rolando Deep Purple e Led Zeppelin e não existia retorno, nem microfonação de bateria.
Era na mão mesmo. A gente tocava com amplificadores de palco de duas colunas de P.A. para três ou quatro mil pessoas num ginásio. Aos poucos, o conjunto foi se equipando melhor, comprando instrumentos e amplificadores de outros grupos...
- Qual sua formação didática?
Serginho Herval - Sou totalmente autodidata. Além de bateria também todo piano, guitarra e violão, mas tudo de ouvido, e hoje tem mais um 'cara' lá em casa que também está tocando, que é meu filho, sem eu nunca ter passado nada pra ele. Sua musicalidade realmente me espanta. Ele toca bateria desde os 2 anos e hoje, com 13, também toca violão e guitarra.
- Você consegue manter uma rotina de estudo diário?
Serginho Herval - Como o Roupa Nova é um grupo que viaja muito, eu tenho contato com o meu instrumento quatro ou cinco vezes por semana, além de gravar bastante, seja com o Roupa ou com outros artistas, e isso acaba sendo um tipo de estudo. Agora, sentar para fazer um single, double e paradidles, eu não faço porque, como sou autodidata, não tive essa educação teórica.
- Você usava metrônomo para praticar em casa?
Serginho Herval - Eu toco com metrônomo desde os 5 anos de idade porque tocava com uma radiovitrola que tinha duas caixinhas pequenas, com uma bateria que tem muito mais volume sem estourar as caixas. Atravessar o tempo, respeitando aquele limite de volume, que além de deixar seu timming em dia, é um ótimo exercício de dinâmica. A facilidade que eu tenho hoje para gravar eu devo a essa prática de tocar junto com os discos.
- Como surgiu o convite para tocar no ROUPA NOVA?
Serginho Herval - Eu tocava no Super Bacanas que era uma banda de baile bem popular, e todas as bandas da época se conheciam. Marcelo Sussekind, que tinha entrado numa banda chamada Bolha, me chamou para fazer parte da nova formação e eu aceitei. A Bolha fazia shows junto com Erasmo Carlos. Nós abríamos com uma apresentação de 40 minutos e depois o Erasmo entrava e nós tocávamos com ele. Aí, nós entramos em estúdio para gravar um compacto com duas faixas para o Erasmo na gravadora RCA. Eu já cantava desde a época do Super Bacanas, então a gravadora me chamou para gravar um disco cantando e tocando guitarra. Eu ia ser o Peter Frampton brasileiro (risos), já tinha uma estratégia de marketing montada e tudo mais para o lançamento, mas na hora de assinar o contrato eu desisti, porque o que eu queria mesmo era tocar bateria numa banda. Eu sempre tive esse espírito de banda. Em 1978, eu entrei para os Famks, que também era uma banda de baile da época mas já tocava uma onda mais underground "a quinta faixa do lado B", que mais tarde mudaria o nome para Roupa Nova.
- São quantos anos de Roupa Nova?
Serginho Herval - A gente vai fazer 23 anos de carreira em agosto de 2003 (já fez!). São 17 (contando o espanhol) e vamos gravar o proximo o ano que vem.
- Qual segredo para manter uma banda tantos anos junta?
Serginho Herval - Eu acho que é parecido com um casamento. Só que são seis mulheres diferentes (risos), mas todos com uma vontade muito grande de que dê certo. Teve um disco do Roupa, que a gente intitulou Seis por um, por isso: são seis pessoas trabalhando por um só objetivo, que é o Roupa Nova. A gente se mata, se xinga, se odeia, se ama, mas depois de 23 anos nós sabemos exatamente quando magoamos ou quando, meia hora depois, pode pedir perdão. Nós criamos "terrenos" os quais a gente não invade sem o outro permitir.
- Como funciona o sistema de composições de vocês?
Serginho Herval - As composições nós trazemos prontas de casa e nos reunimos no estúdio para ouvir todas e votar de cabeça fria, sem preconceito nas preferidas, sem abrir mão das músicas que venham de fora, e os arranjos são sempre coletivos.
- Além dos seus discos, o Roupa Nova gravou com outros artistas...
Serginho Herval - É verdade e esse convívio com esses artistas, vendo como cada um deles trabalha, foi de vital importância pra gente, porque você estar num estúdio, gravando o disco do Fagner com arranjos de César Camargo Mariano, que é um gênio, ou convivendo com a Rita Lee, que é um monstro sagrado do rock brasileiro, com Ney Matogrosso, que é um exemplo de profissionalismo, Milton Nascimento, com quem nós gravamos "Nos bailes da Vida", que foi um grande sucesso e retratava a nossa história, pois nós viemos dos bailes e fomos muito massacrados pela própria imprensa na época, por haver um preconceito contra músicos do suburbio. Uma banda de baile nunca poderia gravar um disco com Gal Costa, Simone ou Roberto Carlos e nós rompemos essa barreira. Esse tipo de relacionamento cria em você uma maturidade que não tem preço.
- Você é um baterista muito requisitado para gravações como sideman e por várias vezes deve ter chegado ao estúdio sem saber o que vai ser gravado, e ter que resolver rápido. Qual é sua postura nessas horas?
Serginho Herval - Geralmente, eu procuro saber antes quem é o artista. Se for o Daniel ou Chitãozinho e Xororó, já sei mais ou menos o que vai acontecer. Mas se for o Zeca Pagadinho, com todo respeito que eu tenho por ele, realmente não sou eu o baterista indicado para esse trabalho. Se a gravação tem alguma possibilidade de dar errado, a culpa é exclusivamente do produtor ou de quem está conduzindo o trabalho e escolheu os músicos para gravar. Muitas vezes, chego ao estúdio e só tem violão e voz-guia gravados em cima de um clik. Então, sento com o produtor para saber o que ele quer e o que vai entrar depois, para eu poder me posicionar dentro da música.
- Qual a diferença na sua forma de tocar ao vivo e em estúdio?
Serginho Herval - Basicamente, a disciplina. No estúdio, gravando, as viradas são mais econômicas, as divisões também nunca ficam fora do tempo. Já no show, há virada que acaba fora de propósito, caixa no tempo ímpar, e o Nando (baixista) já sabe disso e vem comigo. Quebro o compasso no meio, divido diferente, mas só no show. Na gravação, as viradas são metodicamente pensadas e bem divididas com o baixo, para não embolar. A gente vai fazer um DVD este ano e você vai poder ver tudo isso que eu estou falando.
- Como você trabalha a dinâmica?
Serginho Herval - De uma forma geral, eu priorizo: introdução, parte A, parte B, e refrão. Para mim, o B "respira" um pouco mais do que o A, porque vai entregar para o refrão. Eu trabalho como se fosse uma panela de pressão. Claro que existem excessões, mas eu procuro partir desse princípio: intro, o A que vai esquentar, para no B entrar em ebulição e explodir no refrão. Mas, por exemplo, eu sempre ia para o prato de condução no refrão, herança da época de baile e o Feghali, com sua veia de produtor, me ajudou muito nesse sentido. Eu descobri, ouvindo meus influenciadores Vinni Colaiuta, Jeef Porcaco, Dave Weckl, Steve Gadd, que o refrão nem sempre precisa crescer no prato, pode ser com uma dobra de violão, um pandeiro ou cordas e tudo isso vai fazer com que a dinâmica aconteça naturalmente.
- Vamos falar um pouco sobre seu setup.

Serginho Herval - Minha bateria é uma Signia, da Premier, que eu já tenho há sete anos. Por intermédio da Pride, uso pratos Zildjian. Mas como a premier mudou de representante aqui no Brasil e a condição de endorsee de marcas estrangeiras é complicada, estou tendo muita dificuldade de conseguir peças de reposição e manutenção para meu instrumento. A Pride quer que eu mude para Pearl, mas o kit que eu quero vai sair para mim, com desconto e tudo, por US$ 3,5 mil. Eu não estou vendo vantagem em pagar esse valor para promover e divulgar uma marca. Esse mercado de profissionais divulgando grandes marcas surgiu no Brasil e foi muito bem-vindo, porque você consegue ver bateristas bem-sucedidos com bons intrumentos pagando pouco ou até ganhando os equipamentos. Eu continuo estudando outras propostas, mas o meu sonho é conseguir o patrocínio da DW.
- Um em cada dois bateristas da nova geração tem Serginho Herval como referência. O que você acha disso?
Serginho Herval - Isso é a consagração que qualquer músico espera. Eu trabalhei muitos anos, não para que isso acontecesse, mas para um dia, quando eu não estiver mais fazendo isso, saber que contribuí com alguma coisa de bom para as pessoas, que o trabalho valeu a pena. Hoje quando leio aqui na Backstage entrevistas com bateristas como Sergio Melo, Christiano Galvão, Xande Figueiredo, Glaucio Ayala me citando como referência, me sinto muito honrado. Eu também gostaria de citar alguns bateristas pelos quais tenho um grande respeito como Paulo Braga, Carlos Balla, Jurim Moreira, Claudio Infante e Kiko Freitas.
- Qual a mensagem que você daria para quem está começando a tocar?
Serginho Herval - Ouvir todos os estilos de música sem preconceito, aproveitar todas as informações que chegarem às suas mãos, veja videoaulas, métodos, CDs, DVDs, professores, ir a shows e, principalmente, tocar, porque só com experiência pessoal você vai evoluir, ou seja, tocando.
ENTREVISTA PUBLICADA NA EDIÇÃO Nº 100 DE MARÇO/2003 DA REVISTA BACKSTAGE
MUNDO ROUPA NOVA "O MUNDO DE QUEM GOSTA DO ROUPA NOVA"
|