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*** ENTREVISTAS ***
ROUPA NOVA :: UMA CARREIRA SÓLIDA
BAILES - A ESCOLA
Embora alguns dos integrantes tenham desenvolvido algum estudo formal (Cleberson cursou a Escola Nacional de Música e Feghali, apesar de não ter concluído o curso, fez composição e regência), todo o aprendizado musical do grupo foi adquirido na prática, tendo início nos conjuntos de baile. "Sou totalmente autodidata, eu vim aprender alguns acordes e harmonia quando comecei a tocar com eles, pois quando eu comecei num conjunto de baile era no ouvido mesmo", comenta Serginho e, em seguida, Nando garante que, mesmo sem estudo, Serginho toca bateria lendo a partitura da guitarra. Mas todos concordam que evoluíram juntos, cada qual em seu instrumento. Tocar em baile realmente é uma escola. Desta forma se aprende a ouvir o outro. "Tocar junto no palco é muito importante, não sair todo mundo tocando ao mesmo tempo, saber armar um roteiro, lidar com o público. Tudo isso aprendemos fazendo baile. Tocar músicas de outras pessoas dá o maior know how", indica Feghali. Há também outro elemento que contribui para o desenvolvimento do aprendizado. "A gente tem um 'HD' de música muito cheio, informações do passado. Temos na cabeça uma varredura do que foi a música pop de 1964 a 2003, desde timbre até intenção de harmonia, de levada, a temperatura que a música pede...", afirma Nando. "Acontece também de os produtores gostarem de gravar com a gente porque pedem: 'aquela guitarra de fulano de tal', e a gente mostra", complementa Kiko. Segundo Nando, quando eles pensaram em estudar música, já estavam trabalhando cerca de 20 horas por dia na profissão para se sustentar.

GOSPEL E SECULAR
Atualmente, o grupo tem se reunido para os shows e para discutir a forma do novo projeto junto à gravadora Universal. "Existem diversas idéias que a gente quer pôr em prática: um CD só de inéditas, ou metade inéditas e metade de músicas conhecidas, ao vivo, ou um DVD com CD. Somos seis e nosso objetivo é fazer o que seja o melhor para o Roupa Nova, mas cada um tem a sua forma de fazer e é difícil chegar num consenso", revela Serginho. Todos têm composições, mas só vão pensar no repertório quando o formato do projeto estiver decidido. "Na hora de fazer o CD a gente pára tudo e pensa nisso", afirma Feghali.
Além do trabalho com o grupo na estrada, há os projetos desenvolvidos individualmente, porém, muitas vezes com a contribuição dos outros membros da banda. Produções dentro do mercado gospel são realizadas freqüentemente por Serginho, Cleberson e Ricardo Feghali. Serginho acaba de produzir o cantor evangélico Deivison e agora realiza o Acústico Made in Brasil (Universal), um disco de músicas dos anos 60, em versões acústicas (voz, violões e percussão), cantadas em inglês por diferentes brasileiros. Feghali produziu Cleber Lucas, está mixando o novo CD de Aline Barros, ambos do mercado gospel, e o DVD de Alex Cohen, cantor que a Universal está lançando. Feghali aponta a liberdade de mercado e a diversidade do gospel como um ponto positivo. "Pode-se fazer um disco sem pensar muito naquela janela comercial. Na música secular tem que ficar mais preso à visão de como é aquele mercado, etc.". Na opinião de Serginho, o mercado gospel brasileiro está em franca expansão, mas é preciso ter coerência. "Muita coisa no gospel foi buscar informação no mercado secular. Existem muitos trabalhos de excelente qualidade, mas, em alguma hora tende a não dar certo. Na minha opinião, querer imitar Mamomas Assassinas, fantasiado, fazendo palhaçada, destoa um pouco". No mercado secular, Nando terminou recentemente um disco acústico ao vivo com a banda Brazilian Beatles. Também finalizou o trabalho com o grupo de rock Supernova e com a dupla Naldo e Lula. Kiko acabou de produzir a banda do filho, Dona Maria. Há também os trabalhos que o grupo completo realiza para terceiros, como a produção do CD de Ana Maria Braga e de Síria (mulher de Pelé). Os músicos também são bastante requisitados para diferentes trabalhos no estúdio. Recentemente, Ricardo produziu, Kiko gravou com Sandy & Junior, além de Cleberson ter tocado no filme da dupla, e Serginho e Nando gravaram com Belo.

INFLUÊNCIAS
Beatles, Toto, Yes, Queen, Alan Parsons e Jeff Back Group são apenas algumas das influências do Roupa Nova. Paulinho diz que tudo da década de 70 serviu como referência para o grupo. Já Cleberson aponta a música americana e a inglesa como as principais. "A gente cresceu ouvindo isso", comenta ele, que hoje tem escutado música brasileira. "Há coisas maravilhosas como Beto Guedes, Lô Borges, Tom Jobim e Chico Buarque que me arrependo de não ter ouvido, porque estava mais voltado para o rock'n' roll, Jimi Hendrix...". Mas, sem dúvida, as músicas do cancioneiro popular brasileiro que Cleberson estudou no acordeão ainda na infância também o influenciaram de alguma forma. Por outro lado, o Roupa Nova também influenciou muita gente. "Hoje eu consigo ouvir no rádio muito mais influências que estamos passando do que recebendo. Vejo desenhos de contrabaixo, de guitarra, de teclado, virada de bateria e colocação de vocal que nós fizemos em 1985. A música sertaneja atual, "urbana", é toda em cima do Roupa Nova de 1985. A música gospel é muito em cima do que a gente fez há cinco, seis, sete anos", detecta Nando.

Na opinião dos integrantes do grupo, o mercado musical brasileiro está repleto de propostas boas e ruins, na mesma proporção. O que preocupa Serginho são as propostas de qualidade duvidosa que andam transformando a cabeça da juventude. "Uma coisa é você ser e outra é querer ser. Tem muita gente que acha que é igual a fulano de tal apenas porque quer e com isso vem muita porcaria", diz. Cleberson reclama da imposição do 'jabá', que impede que diversas propostas consistentes cheguem até o grande público. "Tem muita coisa boa que as rádios não tocam. Não há espaço para tudo, pois o 'jabá' descarado tomou conta do negócio e muitos trabalhos são barrados". Conseguir chegar no público é uma das principais dificuldades dos artistas que não contam com a estrutura de uma grande gravadora ou dos selos e das pequenas gravadoras independentes que hoje realizam um trabalho valioso, remando contra a maré imposta pelas majors e atingindo sucesso em seus projetos. "Há oito anos, o Ricardo Feghali produziu um disco do Pery Ribeiro que tinha uma faixa do Jorge Vercilo (Encontro das águas). Só agora ele veio a ficar conhecido do público", exemplifica Serginho.
O grupo também sentiu na pele a velocidade com que a pirataria ataca. Estavam masterizando o disco recente Ouro de Minas e foram fazer um show em um desses interiores bem distantes. "Chegamos lá e nosso produtor de show nos levou o disco pirata que comprou por cinco reais", conta Kiko. "Antigamente, um artista que vendia muito, bancava o investimento da gravadora em 20 artistas que vendiam pouco. Hoje, as vendas estão muito baixas e não dá mais para a gravadora investir lentamente na carreira de um cara talentoso, senão ela quebra", resume Nando.
ENTREVISTA CONCEDIDA A MARIA FORTUNA E PUBLICADA NA EDIÇÃO 103 DE JUNHO/2003 DA REVISTA BACKSTAGE
MUNDO ROUPA NOVA "O MUNDO DE QUEM GOSTA DO ROUPA NOVA"
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