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*** ENTREVISTAS ***
SERGIO HERVAL - O RITMO E A VOZ DO ROUPA NOVA
MD: Há quanto tempo a banda não lançava um álbum novo?
Sérgio: Dois anos. Muitas pessoas acham que estamos voltando, mas nós nunca paramos. Você fica um pouco afastado da mídia e já cai no esquecimento. Estamos lançando um CD e um DVD, o décimo sexto álbum da nossa carreira e o primeiro registro oficial de imagens do Roupa em 24 anos de estrada. Quando começamos, em 1980, nos perguntamos: "O que queremos? Queremos ser um fenômeno? Queremos ser só uma música ou queremos uma carreira?" Havia alguns artistas que admirávamos,como Rita Lee, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gonzaguinha, Milton Nascimento. Eles não eram fenômenos, mas artistas que tinham carreiras e, quando começamos, já estavam na estrada há muitos anos. Decidimos que queríamos essa estrada. Ela é bem mais difícil, é cheia de obstáculos, mas a cada obstáculo vencido se torna mais prazerosa. O importante é nos mantermos juntos e batalhar por um único objetivo que se chama Roupa Nova. Temos até um CD chamado 6/1. Esse número seis é exatamente nós seis por um único objetivo. Hoje continuamos com essa empreitada, pela marca Roupa Nova Music, que é o nosso novo selo. Queremos divulgar não mais o Roupa Nova, mas sim o selo Roupa Nova Music. E nada melhor para lançar um selo e uma marca do que um produto conceituado no mercado. Existe uma sinceridade e um orgulho de 24 anos.
MD: Por que CD e DVD acústicos?
Sérgio: Porque é algo que está dando certo. No DVD, além da banda, tem a Mila Schiavo na percussão, o Milton Guedes no sax e um quinteto de cordas. Já fizemos um CD de releitura das nossas canções, o Agora Sim. Lá estão 14 sucessos com uma roupagem nova, mas não foi divulgado.
MD: A criação do Roupa Nova Music é por querer tomar conta do próprio trabalho?
Sérgio: Primeiro, para tomar mais conta do próprio trabalho, sim. Segundo, já temos contatos com alguns artistas que estão meio esquecidos e queremos resgatar esse pessoal, que não tem espaço na mídia. Sempre existiram coisas muito boas na mídia, e coisas muito ruins. O que não acho correto é que não haja mais espaço para coisas boas. Elas têm de ter espaço para aflorar e o que é ruim não pode ser massificado. A indústria fonográfica pega um produto que tem um retorno imediato e investe um capital de giro em cima dele e massifica. O público da minha geração é mais seletivo quando compara. Hoje há três gerações - avô, filho e neto - assistindo aos shows do Roupa Nova. É uma conquista de mercado. Aos poucos, fomos penetrando na cabeça, no coração das pessoas, e elas percebem que somos autênticos.
MD: É muito bom ouvir isso de um artista consagrado.
Sérgio: O que o Roupa Nova está fazendo não é pioneiro. O Roberto Carlos já fez isso há muitos anos e o Djavan também lançou o selo dele. Madonna já faz assim há muitos anos e Phil Collins saiu na frente de todo mundo. No Brasil, temos mais selos como esse porque as gravadoras têm poucos recursos. Elas têm uma verba que vem de fora para administrar, mas há quarenta artistas no casting e a verba só prioriza quem está vendendo 300 mil, 500 mil ou 800 mil cópias. Eles investem milhões de dólares em quatro artistas, só que têm 40! Os artistas que ficam na lista dos 36 vão sucumbindo. Estávamos na "lista dos 36", mas nunca paramos. Nossa média é de 110 shows por ano. Preciso lançar trabalho novo para mostrar às pessoas que tenho um novo espetáculo na praça, que pode ter pinceladas da minha história, mas tenho de lançar um CD novo. Isso não é mágoa, apenas uma questão de análise: todas as gravadoras têm esse perfil.
MD: E são os mesmos seis integrantes desde o início?
Sérgio: Desde o início, mas não vá pensando que não há brigas! Brigamos todos os dias! Existe uma coisa dentro da banda que é prioridade para os seis, agradando ou desagradando: o Roupa Nova. Vamos brigar, sim, mas para que seja bom para a banda e para o selo. Como somos seis, se for voto vencido, acabou a discussão. Se for empate, tem o empresário que sempre está avaliando as discussões, o que ajuda muito. Às vezes, você fica tão envolvido com o que está fazendo que é difícil ver a coisa de outro ângulo. O empresário não, ele fica no escritório, não fica 24 horas com a gente.
MD: O que mudou na sua maneira de tocar para o disco acústico?

Sérgio: Montei um kit que chamamos de Vintage. Pedi um endorssement da RMV e eles forneceram tudo. Estou usando, como kit principal, um bumbo 18x20", um tom de lOx7", um surdo de l3x12" e outro de 14x14". Uma caixa tem l4x5 V2", de metal (ainda é protótipo deles), e outra tem 12x7", de madeira.
MD: Outra coisa que me chamava a atenção é que vocês faziam música pop e a batera tinha dois bumbos. Eu achavaisso o máximo!
Sérgio: É verdade! O que aconteceu com os dois bumbos foi o seguinte: chegávamos nos lugares para tocar e o som só tinha microfone para um bumbo. Quando apareceu o pedal duplo, todos os grandes bateristas que admirava passaram a usá-lo, então uni o útil ao agradável. Na época foi um pedal Yamaha. No meio de uma turnê no Paraná, nessa época, um motorista bêbado bateu com seu caminhão no nosso, que virou e perdemos algumas coisas. Da minha bateria, perdi dois tons e um bumbo. Aproveitei esse acidente e troquei os dois bumbos pelo pedal duplo. Em fevereiro de 2004, estávamos nos preparando para começar os ensaios para o DVD e o César Cortez me perguntou se eu não queria fazer um teste numa RMV. Ele deixou o kit comigo durante três dias para análise e mandou uma bateria idêntica à que estou usando hoje. Fiz o teste e tomei um susto com a sonoridade. Eles estão trabalhando muito bem - usam uma madeira chamada Bapeva, de altíssima qualidade. O consultor técnico é o Maurício Leite. Na praia dele, acho que é imbatível, e isso facilitou muito o intercâmbio da fábrica com os músicos e artistas. A RMV montou um minikit, que uso no momento em que vamos para a frente do palco tocar grandes sucessos da carreira. Pedi esse minikit porque queria tocar de um modo mais intimista. É um kit de série, mas o meu tem bumbo de 16", uma caixinha de lOx3'1/2", um tom de 12x10" - para soar um pouco mais grave - e um splash de 12". Toco esse minikit com vassourinha. Toda vez que ele entra, causa impacto. É da mesma cor da minha batera, sparkle, tipo da Ludwig antiga, a primeira batera que tive quando tocava com Lincoln Olivetti. Aliás, tenho um amigo em Sorocaba que foi ao show, ficou maravilhado e comprou uma configuração igual à minha. Isso me deixa feliz porque é uma parceria comercial. Ainda me deram outro kit, de estúdio, com uma configuração diferente: bumbo 18x20", tons 10x5", 12x6" e surdo de 14x8", curtinhos como timbales, o decay deles morre rápido, muito bom! Trabalhamos muito em estúdio e, com todas as viagens, ralo muito a bateria. Querendo ou não, há um desgaste.
MD: O que você está usando de pele?
Sérgio: Ao vivo, uso Classic Duo em toda a bateria, fora as caixas. Na batera de estúdio, uso a Original Coated.
MD: Além de bateria e de cantar, o que mais você toca?

Sérgio: Toco violão, guitarra, baixo e um pouquinho de piano. Gosto de piano, mas não é a minha praia. Quando acerto a mão esquerda, erro a direita. O tecladista Ricardo Feghali diz que preciso tocar, mas acho impossível fazer uma coisa na mão esquerda e outra na direita. Ele pergunta como faço uma coisa no pé direito, outra no esquerdo, outra na mão direita, outra na esquerda e ainda canto... Ele diz que se levar um teclado para casa e tocar todos os dias um pouco, em um mês já estou tocando. Mas com o advento da tecnologia virtual,consigo gravar primeiro a mão esquerda e depois a direita e você vai ouvir um pianista tocando muito bem! Hoje, com sequencers, Pro Tools e Sonar, é mole! E, para não ser desonesto, uso muita coisa com guitarra midi com som de piano e faço overdub. Fica uma super faixa, com várias execuções.
MD: A sua coordenação para tocar e cantar aconteceu naturalmente ou foi estudada?
Sérgio: Tenho uma coisa que pode ser favorável ou desfavorável: sou autodidata. Hoje tenho um conhecimento de cifra, pois toco violão, componho em casa. Sei para onde posso levar uma harmonia, para que a canção fique um pouco mais agradável, para que possa crescer no refrão, para criar uma parte mais íntima, mais introvertida. Fui para o conservatório quando estava tocando com o Erasmo Carlos, em 1976. Tocava numa banda de rock chamada A Bolha e, durante uns dois anos, acompanhamos o Erasmo. Tivemos uma turnê de 20 e poucos dias pelo Norte e Nordeste e eu havia me matriculado no Conservatório Villa Lobos, no Rio. Assisti a uma única aula de solfejo e viajei. Quando voltei, minha turma - que eram iniciantes que nunca tinham segurado baqueta - já estava lendo e escrevendo partitura e o professor disse que havia duas opções: ou eu voltava para turma inicial, ou seguia a minha vida, pois já era músico profissional e, ao longo do tempo, deveria me dedicar a estudar. Foi o que fiz. Acho que o músico tem de criar o seu próprio estilo.
MD: Como foi o seu começo na música?
Sérgio: Meu primeiro contato foi através da bateria. Descobri o canto com 12 ou 13 anos e comecei a ouvir muita coisa. Como não foi possível estudar nessa época, me servi das armas que tinha em mãos - discos, depois vídeos, depois CDs e agora DVDs. Ouço tudo, vejo tudo. Não tenho tempo de sentar, ver uma videoaula e ficar tirando as coisas, mas estou sempre observando. Na passagem de som, ponho a cabeça para funcionar, linco com o visual, tento fazer o que vi no DVD e vou aprimorando. Levo meus MDs para a estrada, vou ouvindo sempre que posso e fazendo anotações do que gosto. Aí, entro na internet e vou ver que equipamentos estão usando. Entro no site das bandas e artistas que gosto e fico interagindo com essas pessoas, com esse universo. Tenho de me munir das ferramentas que estão disponíveis no mercado, que é o que essa garotada está fazendo hoje. O que é bom, guardo. O que é ruim, filtro e jogo fora. Falo para o meu filho que a mídia tem o poder de massificar certas coisas na cabeça da juventude. Falo para ele que adoro Linkin Park e Limp Bizkit, mas tenho meus grupos de cabeceira da década de 1970.
MD: Como você nunca estudou canto, já teve problemas com a voz?

Sérgio: Em novembro faz um ano que sofri uma cirurgia nas cordas vocais. Meu problema é que falo errado. Estou falando com você ao telefone e toca uma campainha na minha cabeça: "Você está gritando!" Só sei falar assim. Até por causa da bateria, depois de 36 anos de carreira, os tímpanos não são mais a mesma coisa. Após a operação, fiquei 40 dias sem cantar. Agora estou fazendo tratamento fonoaudiológico.
MD: Em todos esses anos de carreira, qual foi o seu maior desafio como baterista?
Sérgio: Em 1992, o Steve Hakett, que era guitarrista do Genesis, veio fazer uma turnê no Brasil e o baterista dele tinha machucado o ombro. Me chamaram para fazer o show e recebi uma fita no dia 21 de abril, no Rio, à lh30 da manhã. Fiquei acordado a madrugada toda fazendo anotações à la Phil Collins, (descobri, depois de anos, que ele também não lê uma nota). Escrevo pauzinhos e, do jeito que escrevo, sei que figura é aquela e como ela soa. Fui para o aeroporto e embarquei para São Paulo. Às 5h30 da tarde estava passando o som com eles no Palace (atual DirecTV Music Hall) e o empresário inglês não entendeu nada. Ele queria cancelar o show, mas o Steve insistiu porque já tinha tido um contato comigo no estúdio da Som Livre, no Rio. Ele veio gravar um disco no Brasil com o Rui Motta, fui assistir de fã e acabei participando de uma faixa. O empresário dizia que o Steve era maluco, como ele ia pegar um cara como eu para tocar, perguntava se ele tinha idéia da responsabilidade. Chamei o Steve e dei duas opções: ou ele confiava em mim e realizava o espetáculo, ou eu voltava para o Rio e tudo bem. Primeiro, não tinha instrumento, porque minha bateria estava trancada dentro do caminhão do Roupa Nova. Arrumaram uma bateria muito mal-conservada e com peles muito ruins. Tinha um amigo meu cuidando do som, o Roberto Massa, e pedi para ele conseguir umas peles. É claro que elas não chegaram e comecei a dar o meu jeitinho. Peguei papel higiênico, fita crepe, estiquei daqui, afrouxei dali. Quando comecei a passar o som, o engenheiro veio correndo da mesa para saber como eu tinha conseguido tirar um som decente com aquelas peles. Falei que aqui é assim que a gente trabalha. Quando terminamos de passar o medley de músicas do Genesis que abria o show, o empresário me chamou, apertou minha mão e pediu desculpas, dizendo que estava aprendendo de novo, que nunca tinha visto nada parecido. Nós, brasileiros, somos mambembes, somos artistas de circo. Fizemos os dois shows no Brasil e foi maravilhoso.
MD: Tudo isso faz parte de uma aprendizagem.

Sérgio: Se eu lesse partituras, teria sido mais fácil. Uma vez li uma reportagem do Gregg Bisonette em que ele entrou para o grupo de David Lee Roth. Foi fazer a audição com mais de 30 bateristas, mas levou tudo escrito. Era o único que sabia tudo e, na realidade, o que ele fez foi ler. O grande lance da leitura é você não ficar preso a ela. Ela tem de ser um guia, tem de te levar a algum lugar e você deve criar coisas dentro da disciplina do artista com o qual está trabalhando.
MD: O grande baterista Efrain Toro diz uma coisa muito interessante: "Se precisarmos dos olhos para entender música, alguma coisa está errada".
Sérgio: É verdade! O engenheiro de som do Steve era formado na Berkley e, quando estávamos no camarim, perguntei como era estudar lá. Ele disse que, de todos os grandes músicos que estudaram lá, nenhum concluiu o curso. Ou seja, todo mundo pegou a essência da coisa e caiu fora, foi fazer o seu lance. Você tem a didática e a técnica, e então vai criar sua personalidade. Se você se enraíza cada vez mais naquela doutrina, vai sair de lá tocando como seu professor. Não sou contra a didática ou a teoria, mas para mim ela não funcionou. Naquele momento com Steve Hakett seria vital se eu soubesse ler. Como tenho facilidade em decorar, que foi um dom de Deus, ouvi a fita dele, fui tocando e lembrando.
MD: Como você cria seu estilo?

Sérgio: Na verdade, o que você faz é um aprimoramento, um apanhado de coisas que ouve. Então, quando me vejo numa situação parecida com Dave Weckl, vou roubar uma virada dele. Quando me vejo numa música parecida com Linkin Park, vou pegar um groove deles. Misturando tudo, crio meu estilo. Você precisará ter um pouco de talento e discernimento para avaliar se aquela virada cabe naquele estilo. A grande sacada é ouvir tudo e saber usar esse material de forma correta. Não posso passar a vida ouvindo Dennis Chambers e querer fazer quatro faixas com o Leonardo. Vou trucidar o trabalho dele e nunca mais serei chamado para um trabalho na área! É preciso ver os vídeos do Dennis Chambers, do Cuca Teixeira, do Albino Infantozzih - tenho tudo de todo mundo em casa. Alguns me servem mais dentro do universo em que trabalho, que é a música popular. Quando o cara pisca, coloco uma viradinha um pouco mais legal, sem atrapalhar o trabalho, sem o artista ficar sem dormir e me chamar denovo. Acabei de fazer um disco com uma cantora espanhola, a convite do Max Pierre, da Universal. Ele estava no coquetel de lançamento do DVD do Roupa Nova e me disse: "Você tocou muito no disco da Tamara!". É um disco para a Espanha, ela só gravou músicas de Roberto Carlos com uma pegada Luís Miguel, tudo com vassourinha, bem diferente do Roupa Nova. Tive de me moldar àquela situação. Não sou um baterista de vassourinha, mas tenho de conhecer para me encaixar. Como o que queriam era uma vassourinha pop, me encaixei como uma luva. Pude escovar a caixa, fazer umas viradas, uns grooves com cara de Jeff Porcaro, tudo com vassourinha.
MD: Você não teve uma educação formal, mas uma educação da prática. Continua estudando os bateristas, analisando sua técnica?
Sérgio: Quando vou gravar, peço um briefing. Depois, ouço os bateristas de quem sei que posso pegar alguma coisa. Quando entro no estúdio e passo o som, já faço os grooves que estava ouvindo.
ENTREVISTA CONCEDIDA A FELIPE DRAGO E PUBLICADA NA REVISTA MODERN DRUMMER ED. OUTUBRO DE 2004
MUNDO ROUPA NOVA "O MUNDO DE QUEM GOSTA DO ROUPA NOVA"
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